3 Ideias e um pouco mais a Sério
Aqui segue um post do falecido blog muitomaislongequeaterra.Hoje sou uma tartaruga. Cheguei ao emprego e em vez de atender chamadas fico parado, deitado de barriga para baixo, preso pelo peso da minha carapaça. O meu patrão, o George, que é muito paneleiro até para cabeleireiro, pavoneia-se à minha volta reclamando por guinchinhos eu não estar a receber os fregueses nem a tratar das chamadas. Estou debaixo da minha mesa, de olhos esbugalhados e só quero nadar um pouco. Os clientes, conforme entram para fazer penteados à tijela, desbastar a careca, ou pintar madeixas louras e vermelhas, olham para mim, tartaruga no chão, e estranham. Habitualmente nos barbeiros há papagaios. Mas eu não quero saber de nada disto. Começo a andar pelo meio da loja, devagar, uma pata de cada vez. Alguns fregueses começam a fugir pela porta. Burros! Não sabem que as tartarugas não atacam humanos??? Avanço lentamente até à bacia de lavagem de cabelos. A custo, trepo até acima do pequeno balcão que a rodeia e começo a meter as patas e a cabeça à vez. Bah! Muito quente. O senhor que estava a lavar a cabeça, egoista, reclama com o George. Não parece querer partilhar. O meu patrão perde a cabeça e desata a gritar comigo: - João, que raio estás a fazer!!!! Perdeste de todo o juizo? E eu a olhar para ele pelos meus olhos de tartaruga, esbugalhados e atentos. Que disparate... Alguém já ouviu falar de tartarugas malucas?
Não façam como eu... Não se esqueçam dos anos dela, que ela disso não se esquece. Não esqueçam o óleo ao lume. Não metam o sal no açucareiro e o açúcar no saleiro - se o fizerem metam o o primeiro no galheteiro e o segundo no armário ao lado das chávenas. Não se levantem de um pulo para começar o dia mais depressa, o sangue pode não chegar a tempo à cabeça. Não façam equilibrismo com o frasco do Ketchup na cozinha, mesmo que tenham pavimento inquebrável terão sempre de o limpar. Não acordem só de noite, que a noite nunca faz de dia. Não vão embora antes do tempo. Não fiquem à espera de acabar o café. Não peçam leite num bar à noite. Não bebam mais depressa que os outros. Não durmam no vão de escadas dos vosso pais só para não bater à porta e os acordar. Não abram a porta estranhos. Não fechem a porta a estranhas. Não façam a cama com alguém lá dentro. Não digam a verdade se esta for pior que qualquer mentira. Não se limitem a fechar os olhos e desejar com muita força se quiserem que alguém à vossa frente desapareça. Não adormeçam na praia no inverno. Não acordem na praia no verão. Não comam alho nem feijão no primeiro encontro. Não metam a televisão à frente de um espelho. Não digam só aquilo que pensam, digam tudo o que vos vier à cabeça. Não tenham medo de estar errados, tenham medo que os outros saibam o que está certo. Não escrevam nada que dê mais trabalho a ler do que aquele que vos deu a escrever. Não comecem todas as frases de um texto com a mesma palavra. Não cansem os leitores com mais do que eles querem ler. Não...
A maioria dos homens hoje em dia tem as mulherzinhas-troféu a pavonear-se num qualquer emprego que por muito bom que seja pouco lhes interessa. Levam-nas a jantar fora... talvez ao mesmo restaurante onde levam a "namorada" - se são audaciosos o suficiente para passar as conversas de balneário à práctica. Dão-lhes cinco minutos de sexo desapegado, caritativo, protocolar e mal lubrificado e enrolam-se a dormir. Afinal, após um dia inteiro ouvindo os relatos sobre as incursões dos amigos e colegas às senhoras da vida, o estado de te(n)são está latente e espera apenas o momento certo para descarregar.
EU não f... por fora. Tenho em casa todos os tachos e panelas com que uma mulher pode sonhar. Máquinas de lavar não. Não vou patrocinar o calonismo em minha casa. Para isso tinha deixado a Carlota aceitar aquele emprego em que passava o dia a rebolar num taillerzinho a fingir-se de executiva . Com secretário e mulher da limpeza. E em casa faziamos o quê? Punhamos uma preta ou natasha qq a remexer as nossas coisas, dando-lhe uma desculpa para sair do gueto onde tivemos tanto cuidado em enfia-las... Estas mulheres que ainda por cima e pela sua carência de banho funcionam como um desodorizante doméstico mas de efeito contrário.
Não, não... A minha mulher é a minha mulher, e a minha casa é a minha casa, a primeira não é empregada de outros e a segunda não é centro de dia para imigrantes ilegais.
Sou um cavalheiro, mas tanto puxo a cadeira para a Carlota como lhe bato com ela na cabeça se a sopa está fria. Um homem para todas as épocas ou ocasiões. Não era esse o epiteto de Thomas Moore?
Depois de bater na minha mulher lavo-lhe sempre as feridas. Dou-lhe sexo todos os dias, olhos nos olhos, e termino sempre com um abraço. Não lhe dou dinheiro para comprar roupa mas deixo-a sempre escolher o que quer vestir entre aquilo que lhe arranjo. Nunca levo trabalho para casa.
Considero-me um homem justo. Dou sempre menos respeito às outras mulheres do que dou à minha mulher.
Pensem bem... Conhecem alguém melhor?
Há muito que quero ir bater à tua porta. Avanço pela rua, andar trôpego a fazer crer que tenho uma perna maior do que a outra, tocando-lhes alternadamente a vez de ser a mais pequena. Pego num montão de ideias sobre como abordar a questão e disponho-as sobre um vasto areal na minha cabeça tentando escolher uma, ou a combinação de várias, acabando por revolver tudo e ficar atolado no meio dos cenários. Desisto das soluções pré-cozinhadas e mantenho a passada em espirito de aventura, catana em riste tentando que este objecto inexistente contenha a resolução e coragem que me falta.
Avisto finalmente a tua casa. Parece convidativa, janelas abertas, flores a rebentar nas trepadeiras abraçadas às grades do jardim e as paredes azuis claras avivadas pela luz do dia. Paro de repente assustado. E se estás a olhar para fora neste momento?? Não estou ainda preparado para que me vejas! Mando-me para o chão num salto e sento-me contra o muro ofegando como um cavalo de corrida. Gasto uns segundos para recuperar a presença de espirito e começar a entoar na minha cabeça os mantras que vinham na edição do mês da GQ. Sacudo-me e levanto-me lentamente na postura o mais descontraida que consigo, tentanto parecer alheado e relativamente indiferente à tua casa – não vás tu olhar.
Atravesso a rua para o outro lado e contorno-a até estar de frente para o portão. Consigo sentir a confiança a crescer dentro de mim e começo a raspar os cascos contra a calçada a preparar a investida. Penso no quanto te quero ver, trocar umas palavras contigo, arrancar-te um sorriso, ganhar confiança para ir insinuando um beijo. Por fim, a decisão está feita. Arranco decidido, pronto a entrar e... é ai que tudo entra em colapso.
Margaridas!! As malditas margaridas!!! De tanto fantasiar contigo e de pensar na dificuldade em captar a tua atenção esqueci-me do que realmente temia. Aquele maldito jardim de margaridas que obstroi a entrada. Sempre me perguntei como conseguias entrar e sair sem deixar pisadas estas flores. Tu e os outros que te visitassem. E sempre me soube incapaz de atravessar este campo sem lançar a natureza em justificado pé de guerra contra mim e ao mesmo tempo mostrar toda a minha inépcia. Sentia-me demasiado pesado, desajeitado e desconhecedor para enfrentar esta tarefa para pés em luvas de seda.
Meti o rabinho entre as pernas e sai de pianinho – ninguém viu! Da próxima é q é!
Era mais fácil se mugisse como as vacas. Era mais simples falar como quem mastiga ou nesse mastigar fingir falar. Tudo mais claro se os olhos adormecidos me adornassem de fábrica e a cabeça baixa fosse só de expirrar na erva.
Ouvia...
E quanto mais ouvia falar mais me sentia essa vaca na hora de maior frenesim dos mosquitos. Imaginava laboriosamente como para tal zum zum seria preciso uma manada de insectos elefantescos num dia de agitação desusada.
Pena que as quatro paredes me começassem a sorver o oxigénio que de caminho vertical à minha cabeça soprava também estes lampejos de imaginação transportando-me para uma dimensão parelela.
E eles falavam como quem petisca de uma travessa imunda da qual nunca pareciam estar saciados. Consumiam o ar num processo contrário ao das plantas que de tal impeto devia ter posto toda a flora de sentinela.
Sendo o espaço e o tempo o mesmo em termos quânticos, e algumas palavras proferidas apenas ar, a matéria estaria naquele ponto sobrecarregada, á espera do momento em que, de um pulo, um buraco negro nascesse e nos sugasse a todos. E como os buracos negros afinal talvez não existam estariamos além de perdidos quiçá inexistentes.
Acordo.
Contrafeito, largo aos bochechos mão do papagaio em que passeava o pensamento e aterro pesadão no sofá donde todavia nunca desaparecera. Sorrio. Que se lixe... Se não podemos ser vacas nem particulas ameçadas pelo desaparecimento mais vale falar sobre o Papa, o Aborto ou o Mourinho.
4ªf 17h24
Ainda estou no trabalho. Não tenho nada para fazer. Estou farto de flirtar com a colega da mesa em frente. Já fomos sair. - Levei-a a jantar. Chamou a lagosta, mandei vir o vinho, bebeu do meu copo, pedi a conta, pediu que a levasse a casa, empurrei-lhe a cabeça pela nuca em direcção à minha braguilha, gritou, saiu, gritei eu também puta pela janela fora. - . Estou farto de estar sentado. Fico com a barriga pendurada, sinto-me gordo. Não é para isto que gasto 75€ por mês no ginásio.
4ªf 17h30
E foi um tic-tactear pelos segundos até à hora de saida. Saio sem me despedir. Ergo a cabeça, alongo os ombros e saio com um pé à frente do outro como aprendi com as modelos da televisão. Entro no carro, o meu MX-5, tão bonito. Está uma loura do outro lado da rua. Ponho os óculos escuros (Dolce & Gabanna), baixo a capota, entra a chuva, fico molhado, a àgua vai deixar manchas nos estofos, mas estou sexy de cabelo molhado. A loura olha para mim de olhos esbugalhados e boca bem aberta. Sou supreendentemente sexy. A grilheta da vergonha amarra-a ao outro passeio. Não tenho tempo para isto. Casa...
6ªf 8h30
O despertador toca afinadíssimo as Quatro Estações de Vivaldi. A minha cabeça toca percursão. Ressaca. Um Guronsam no copo de àgua. Visto o robe de seda sobre o corpo nu. Vou-me lembrando... comi aquela pita do bar. Bah... Não deve ser ilegal. Só me apercebi que era uma miúda quando a penetrei e desatou a guinchar como uma ovelhinha no matadouro. Entro no duche, lavo o cabelo, esfolio-me.
Sáb 23h00
Recebi os meus amigos cá em casa. Começámos a beber cerveja importada, a comer paté e caviar enquanto viamos o futebol na televisão. Jantámos, fechámos com a sobremesa de rum, fizemos umas linhas de coca. Agora estamos no auge. A correr pela sala, vestidos em lingerie branca com plumas rosa nas mãos a servirem para umas palmadas uns nos outros.
2ªf 9h30
Mais uma semana de labuta. O fim-de-semana foi normalissímo. Começo a ficar aborrecido. Salvou-se a ida às compras no domingo. Fui com o José Carlos, opinámos nas compras um do outro, ajudamo-nos a provar a roupa (os provadores continuam muito estreitos para duas pessoas), saimos com o coração confortado pelo volume de sacos de cartão a penderem dos nossos braços pelos pulsos.
Já estou a meio caminho do escritório, vinha conduzindo rápido. Reduzo a velocidade, baixo a capota, aperto os pulmões da Shakira até as colunas do carro ficarem perto de rebentar, e depois canto ainda por cima dela. Entro numa envolvência de sentidos e, com a écharpe no pescoço a dançar com o vento, sinto-me bonito, irradiante, harmonioso, e parece que estou a voar.
Os carros abrandam, deve ter havido um acidente mais à frente. Canto mais ainda eu e a Shakira e dançamos os dois (só da cintura para cima ondulo). Com a interrupção do trafego, todas as atenções ficam disponivéis e centram-se em mim. Sou uma besta sexy! A semana é capaz de não vir a ser tão má.
Numa fase em que o paradigma de que Deus controla as nossas vidas parece estar caduco e a força religiosa vem apenas de um ainda largo espectro de medo da condenação eterna, o homem não se livra do amor ao Destino. O destino sempre foi visto como caminho escrito “lá em cima”, seja pela caligrafia redonda e certinha do divino, seja pelo trilho picotado das estrelas. Mas agora, que a bruma do mistico se vai desfazendo em vapor de àgua, o homem quer pegar na batuta e orquestrar a sua vida inteirinha até ao último suspiro, ou mais exactamente até ao último contrato. De facto, o adulto moderno deixou de ver a vida no mundo aberto de campos, de cidades e das milhões de almas que vagueiam à nossa volta. O passado e o futuro são pontuados por papelada e a burocracia (a esta hei-de voltar noutra ocasião) puxou para si o trono do destino.
No outro dia tentava trabalhar e a minha própria voz dentro da minha cabeça era abafada por um ruido da sala ao lado. Uma mensageira do novo líder do destino na pessoa de uma comercial bancária ajudava dois individuos a escolher o seu plano de poupança.
-O Manuel escolheu o plano E. Muito bem. Assim, por xx€ por mês, durante o minimo de 10 anos, tem direiro à reforma, ao tratamento da primeira cárie depois da dentadura completa, ao parto, escola e mais tarde universidade da Margarida (ainda bem que decidiu com a Joana, assim que casarem terem primeiro uma menina), ao primeiro aborto da sua segunda mulher e leva um porta-chaves oferta do banco. Não fica é contemplado o veterinário do cão (acho óptima ideia quererem um para a nova casa. Já só faltam 3 anos para estar pronta não é?), a 4ª classe e 5º ano do terceiro filho no colégio de sobredotados, nem fica habilitado a uma viagem para dois. Por mais x€ comprava o plano D e conseguia estas e outras vantagens.
O jovem adulto de hoje é o reformado de amanhã. E com o entretanto a ser uma mera formalidade, o amanhã está mesmo ali ao virar da esquina. Com o esforço de pavimentar em calçada romana o nosso percurso desde aqui até ao infinito (não pondo de parte que a morte passe a ser mais um evento agendado), não estaremos também a fechar-nos num labirinto acreditando ter o mapa da saida?
Hoje Sufrim vai ajudar você a ser feliz. Sufrim partilha com todos o segredo da felicidade. É... A Felicidade tem que ser segredo. A felicidade, como o dinheiro, só interessa porque nem todos a têm. Como dizia o ché da televisão, "o dinheiro é uma unidade de posse relativa". Você tem mais, Sufrim, ou outro mais pobre alguém, terá deter menos. E você gosta de ter dinheiro porque está um passo mais perto de ser homé rico, que é como dizer que tem mais que Sufrim e os outros que agora lhe chamam de chifrudo e filho da puta. Não porque você é rico, mas porque nósências não somos não. E a Felicidade é como o dinheiro. Mas você não pode comprar felicidade. Quando você pode comprar, você faz tudo nem que seja se vender. E puta é triste. Puta é triste porque o cliente quer vestir de colegial e ser espancado com régua de madeira, mas não deixa felicidade no tampo que tapa os gaveta da mesa de cabeceira. Você quer ser feliz e não sabe como. É segredo. Sufrim é feliz porque você não é. Sufrim é feliz porque você não sabe. Sufrim não vai contar nada pra você.