3 Ideias e um pouco mais a Sério
Wednesday, February 18, 2004
  4ªf 17h24

Ainda estou no trabalho. Não tenho nada para fazer. Estou farto de flirtar com a colega da mesa em frente. Já fomos sair. - Levei-a a jantar. Chamou a lagosta, mandei vir o vinho, bebeu do meu copo, pedi a conta, pediu que a levasse a casa, empurrei-lhe a cabeça pela nuca em direcção à minha braguilha, gritou, saiu, gritei eu também puta pela janela fora. - . Estou farto de estar sentado. Fico com a barriga pendurada, sinto-me gordo. Não é para isto que gasto 75€ por mês no ginásio.

4ªf 17h30

E foi um tic-tactear pelos segundos até à hora de saida. Saio sem me despedir. Ergo a cabeça, alongo os ombros e saio com um pé à frente do outro como aprendi com as modelos da televisão. Entro no carro, o meu MX-5, tão bonito. Está uma loura do outro lado da rua. Ponho os óculos escuros (Dolce & Gabanna), baixo a capota, entra a chuva, fico molhado, a àgua vai deixar manchas nos estofos, mas estou sexy de cabelo molhado. A loura olha para mim de olhos esbugalhados e boca bem aberta. Sou supreendentemente sexy. A grilheta da vergonha amarra-a ao outro passeio. Não tenho tempo para isto. Casa...

6ªf 8h30

O despertador toca afinadíssimo as Quatro Estações de Vivaldi. A minha cabeça toca percursão. Ressaca. Um Guronsam no copo de àgua. Visto o robe de seda sobre o corpo nu. Vou-me lembrando... comi aquela pita do bar. Bah... Não deve ser ilegal. Só me apercebi que era uma miúda quando a penetrei e desatou a guinchar como uma ovelhinha no matadouro. Entro no duche, lavo o cabelo, esfolio-me.

Sáb 23h00

Recebi os meus amigos cá em casa. Começámos a beber cerveja importada, a comer paté e caviar enquanto viamos o futebol na televisão. Jantámos, fechámos com a sobremesa de rum, fizemos umas linhas de coca. Agora estamos no auge. A correr pela sala, vestidos em lingerie branca com plumas rosa nas mãos a servirem para umas palmadas uns nos outros.

2ªf 9h30

Mais uma semana de labuta. O fim-de-semana foi normalissímo. Começo a ficar aborrecido. Salvou-se a ida às compras no domingo. Fui com o José Carlos, opinámos nas compras um do outro, ajudamo-nos a provar a roupa (os provadores continuam muito estreitos para duas pessoas), saimos com o coração confortado pelo volume de sacos de cartão a penderem dos nossos braços pelos pulsos.
Já estou a meio caminho do escritório, vinha conduzindo rápido. Reduzo a velocidade, baixo a capota, aperto os pulmões da Shakira até as colunas do carro ficarem perto de rebentar, e depois canto ainda por cima dela. Entro numa envolvência de sentidos e, com a écharpe no pescoço a dançar com o vento, sinto-me bonito, irradiante, harmonioso, e parece que estou a voar.
Os carros abrandam, deve ter havido um acidente mais à frente. Canto mais ainda eu e a Shakira e dançamos os dois (só da cintura para cima ondulo). Com a interrupção do trafego, todas as atenções ficam disponivéis e centram-se em mim. Sou uma besta sexy! A semana é capaz de não vir a ser tão má.
 
Wednesday, February 04, 2004
  Numa fase em que o paradigma de que Deus controla as nossas vidas parece estar caduco e a força religiosa vem apenas de um ainda largo espectro de medo da condenação eterna, o homem não se livra do amor ao Destino. O destino sempre foi visto como caminho escrito “lá em cima”, seja pela caligrafia redonda e certinha do divino, seja pelo trilho picotado das estrelas. Mas agora, que a bruma do mistico se vai desfazendo em vapor de àgua, o homem quer pegar na batuta e orquestrar a sua vida inteirinha até ao último suspiro, ou mais exactamente até ao último contrato. De facto, o adulto moderno deixou de ver a vida no mundo aberto de campos, de cidades e das milhões de almas que vagueiam à nossa volta. O passado e o futuro são pontuados por papelada e a burocracia (a esta hei-de voltar noutra ocasião) puxou para si o trono do destino.

No outro dia tentava trabalhar e a minha própria voz dentro da minha cabeça era abafada por um ruido da sala ao lado. Uma mensageira do novo líder do destino na pessoa de uma comercial bancária ajudava dois individuos a escolher o seu plano de poupança.
-O Manuel escolheu o plano E. Muito bem. Assim, por xx€ por mês, durante o minimo de 10 anos, tem direiro à reforma, ao tratamento da primeira cárie depois da dentadura completa, ao parto, escola e mais tarde universidade da Margarida (ainda bem que decidiu com a Joana, assim que casarem terem primeiro uma menina), ao primeiro aborto da sua segunda mulher e leva um porta-chaves oferta do banco. Não fica é contemplado o veterinário do cão (acho óptima ideia quererem um para a nova casa. Já só faltam 3 anos para estar pronta não é?), a 4ª classe e 5º ano do terceiro filho no colégio de sobredotados, nem fica habilitado a uma viagem para dois. Por mais x€ comprava o plano D e conseguia estas e outras vantagens.

O jovem adulto de hoje é o reformado de amanhã. E com o entretanto a ser uma mera formalidade, o amanhã está mesmo ali ao virar da esquina. Com o esforço de pavimentar em calçada romana o nosso percurso desde aqui até ao infinito (não pondo de parte que a morte passe a ser mais um evento agendado), não estaremos também a fechar-nos num labirinto acreditando ter o mapa da saida?
 
Quando não existe um motivo em especial para pensar

ARCHIVES
11/01/2003 - 12/01/2003 / 01/01/2004 - 02/01/2004 / 02/01/2004 - 03/01/2004 / 04/01/2005 - 05/01/2005 / 06/01/2006 - 07/01/2006 /


Powered by Blogger