3 Ideias e um pouco mais a Sério
Monday, June 19, 2006
  Aqui segue um post do falecido blog muitomaislongequeaterra.

Hoje sou uma tartaruga. Cheguei ao emprego e em vez de atender chamadas fico parado, deitado de barriga para baixo, preso pelo peso da minha carapaça. O meu patrão, o George, que é muito paneleiro até para cabeleireiro, pavoneia-se à minha volta reclamando por guinchinhos eu não estar a receber os fregueses nem a tratar das chamadas. Estou debaixo da minha mesa, de olhos esbugalhados e só quero nadar um pouco. Os clientes, conforme entram para fazer penteados à tijela, desbastar a careca, ou pintar madeixas louras e vermelhas, olham para mim, tartaruga no chão, e estranham. Habitualmente nos barbeiros há papagaios. Mas eu não quero saber de nada disto. Começo a andar pelo meio da loja, devagar, uma pata de cada vez. Alguns fregueses começam a fugir pela porta. Burros! Não sabem que as tartarugas não atacam humanos??? Avanço lentamente até à bacia de lavagem de cabelos. A custo, trepo até acima do pequeno balcão que a rodeia e começo a meter as patas e a cabeça à vez. Bah! Muito quente. O senhor que estava a lavar a cabeça, egoista, reclama com o George. Não parece querer partilhar. O meu patrão perde a cabeça e desata a gritar comigo: - João, que raio estás a fazer!!!! Perdeste de todo o juizo? E eu a olhar para ele pelos meus olhos de tartaruga, esbugalhados e atentos. Que disparate... Alguém já ouviu falar de tartarugas malucas?
 
  Não façam como eu... Não se esqueçam dos anos dela, que ela disso não se esquece. Não esqueçam o óleo ao lume. Não metam o sal no açucareiro e o açúcar no saleiro - se o fizerem metam o o primeiro no galheteiro e o segundo no armário ao lado das chávenas. Não se levantem de um pulo para começar o dia mais depressa, o sangue pode não chegar a tempo à cabeça. Não façam equilibrismo com o frasco do Ketchup na cozinha, mesmo que tenham pavimento inquebrável terão sempre de o limpar. Não acordem só de noite, que a noite nunca faz de dia. Não vão embora antes do tempo. Não fiquem à espera de acabar o café. Não peçam leite num bar à noite. Não bebam mais depressa que os outros. Não durmam no vão de escadas dos vosso pais só para não bater à porta e os acordar. Não abram a porta estranhos. Não fechem a porta a estranhas. Não façam a cama com alguém lá dentro. Não digam a verdade se esta for pior que qualquer mentira. Não se limitem a fechar os olhos e desejar com muita força se quiserem que alguém à vossa frente desapareça. Não adormeçam na praia no inverno. Não acordem na praia no verão. Não comam alho nem feijão no primeiro encontro. Não metam a televisão à frente de um espelho. Não digam só aquilo que pensam, digam tudo o que vos vier à cabeça. Não tenham medo de estar errados, tenham medo que os outros saibam o que está certo. Não escrevam nada que dê mais trabalho a ler do que aquele que vos deu a escrever. Não comecem todas as frases de um texto com a mesma palavra. Não cansem os leitores com mais do que eles querem ler. Não... 
Tuesday, June 13, 2006
  A maioria dos homens hoje em dia tem as mulherzinhas-troféu a pavonear-se num qualquer emprego que por muito bom que seja pouco lhes interessa. Levam-nas a jantar fora... talvez ao mesmo restaurante onde levam a "namorada" - se são audaciosos o suficiente para passar as conversas de balneário à práctica. Dão-lhes cinco minutos de sexo desapegado, caritativo, protocolar e mal lubrificado e enrolam-se a dormir. Afinal, após um dia inteiro ouvindo os relatos sobre as incursões dos amigos e colegas às senhoras da vida, o estado de te(n)são está latente e espera apenas o momento certo para descarregar.
EU não f... por fora. Tenho em casa todos os tachos e panelas com que uma mulher pode sonhar. Máquinas de lavar não. Não vou patrocinar o calonismo em minha casa. Para isso tinha deixado a Carlota aceitar aquele emprego em que passava o dia a rebolar num taillerzinho a fingir-se de executiva . Com secretário e mulher da limpeza. E em casa faziamos o quê? Punhamos uma preta ou natasha qq a remexer as nossas coisas, dando-lhe uma desculpa para sair do gueto onde tivemos tanto cuidado em enfia-las... Estas mulheres que ainda por cima e pela sua carência de banho funcionam como um desodorizante doméstico mas de efeito contrário.
Não, não... A minha mulher é a minha mulher, e a minha casa é a minha casa, a primeira não é empregada de outros e a segunda não é centro de dia para imigrantes ilegais.
Sou um cavalheiro, mas tanto puxo a cadeira para a Carlota como lhe bato com ela na cabeça se a sopa está fria. Um homem para todas as épocas ou ocasiões. Não era esse o epiteto de Thomas Moore?
Depois de bater na minha mulher lavo-lhe sempre as feridas. Dou-lhe sexo todos os dias, olhos nos olhos, e termino sempre com um abraço. Não lhe dou dinheiro para comprar roupa mas deixo-a sempre escolher o que quer vestir entre aquilo que lhe arranjo. Nunca levo trabalho para casa.
Considero-me um homem justo. Dou sempre menos respeito às outras mulheres do que dou à minha mulher.
Pensem bem... Conhecem alguém melhor? 
Thursday, June 01, 2006
  Há muito que quero ir bater à tua porta. Avanço pela rua, andar trôpego a fazer crer que tenho uma perna maior do que a outra, tocando-lhes alternadamente a vez de ser a mais pequena. Pego num montão de ideias sobre como abordar a questão e disponho-as sobre um vasto areal na minha cabeça tentando escolher uma, ou a combinação de várias, acabando por revolver tudo e ficar atolado no meio dos cenários. Desisto das soluções pré-cozinhadas e mantenho a passada em espirito de aventura, catana em riste tentando que este objecto inexistente contenha a resolução e coragem que me falta.

Avisto finalmente a tua casa. Parece convidativa, janelas abertas, flores a rebentar nas trepadeiras abraçadas às grades do jardim e as paredes azuis claras avivadas pela luz do dia. Paro de repente assustado. E se estás a olhar para fora neste momento?? Não estou ainda preparado para que me vejas! Mando-me para o chão num salto e sento-me contra o muro ofegando como um cavalo de corrida. Gasto uns segundos para recuperar a presença de espirito e começar a entoar na minha cabeça os mantras que vinham na edição do mês da GQ. Sacudo-me e levanto-me lentamente na postura o mais descontraida que consigo, tentanto parecer alheado e relativamente indiferente à tua casa – não vás tu olhar.

Atravesso a rua para o outro lado e contorno-a até estar de frente para o portão. Consigo sentir a confiança a crescer dentro de mim e começo a raspar os cascos contra a calçada a preparar a investida. Penso no quanto te quero ver, trocar umas palavras contigo, arrancar-te um sorriso, ganhar confiança para ir insinuando um beijo. Por fim, a decisão está feita. Arranco decidido, pronto a entrar e... é ai que tudo entra em colapso.

Margaridas!! As malditas margaridas!!! De tanto fantasiar contigo e de pensar na dificuldade em captar a tua atenção esqueci-me do que realmente temia. Aquele maldito jardim de margaridas que obstroi a entrada. Sempre me perguntei como conseguias entrar e sair sem deixar pisadas estas flores. Tu e os outros que te visitassem. E sempre me soube incapaz de atravessar este campo sem lançar a natureza em justificado pé de guerra contra mim e ao mesmo tempo mostrar toda a minha inépcia. Sentia-me demasiado pesado, desajeitado e desconhecedor para enfrentar esta tarefa para pés em luvas de seda.

Meti o rabinho entre as pernas e sai de pianinho – ninguém viu! Da próxima é q é! 
Quando não existe um motivo em especial para pensar

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